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O MELHOR VAI COMEÇAR - O MERCADO MUSICAL BRASILEIRO NA VISÃO DE GUILHERME ARANTES

Nesta edição do Porto Musical, os participantes terão a oportunidade de conferir uma instigante conversa entre o cantor e compositor Guilherme Arantes e o crítico musical Marcus Preto. Autor de diversos hits radiofônicos, marcados sobretudo pelas trilhas compostas para novelas, Guilherme Arantes lançou mais de 20 discos através de grandes gravadoras e de forma independente. “Condição Humana”, seu mais recente CD foi lançado pelo seu próprio selo Coaxo do Sapo e rendeu ao cantor o prêmio de Melhor Álbum na edição do Prêmio Multishow de 2013.

Em entrevista exclusiva, Guilherme Arantes comenta sobre o atual mercado brasileiro na área da música e o trabalho que vem desenvolvendo com muito amor com seu selo e estúdio Coaxo do Sapo. E na contramão de muitos artistas que tem receio de colocar suas obras na Internet, Arantes disponibilizou toda sua discografia no Soundcloud para que qualquer pessoa tenha acesso a tudo que ele fez.

- Em quase quarenta anos de carreira, você viu o mercado musical brasileiro em diversas fases e vivenciou várias maneiras de se trabalhar com música. O que tem refletido acerca do modelo atual de produção de discos e de consumo musical?
 
Guilherme Arantes - O Brasil passa por uma crise institucional muito grave. Tem sido complicado a mídia se adaptar às mudanças sociais. As estruturas midiáticas também estão arcaicas, estabelecidas em outras eras, de outras configurações políticas, nas concessões políticas de canais de rádio e TV. O que se privilegia hoje, na chamada "grande mídia" , são costumes de divertimento de massa, muita festa, muita balada, mas pouco espaço para a criatividade mais pensante. A musica mais criativa então migrou para uma pulverização via internet, e estamos num processo violento de transformação nas relações com o publico e mercado.
  
- O que seria empreendedorismo na área musical para você?
Guilherme Arantes - É mais ou menos o que eu faço, o que fazemos, com o Coaxo do Sapo : um selo musical alicerçado no amor pela música, em nutrir aquilo que o "mercado" já está bastante refratário.
 
- E com relação ao mercado de shows no país, como você tem visto a realização de seus shows pelas diferentes regiões do Brasil em termos de estrutura e receptividade?
Guilherme Arantes - A estrutura , realmente , melhorou muito com a evolução do "show business”, e nisso se inclui toda a parte de equipamentos e serviços, hoje muito mais profissionais do que na década de 80 para trás. De receptividade, não posso reclamar, com o inercial de uma carreira de 40 anos, sempre tem sido muito boa.
 
- Mesmo hoje em dia, com tantas formas de difusão e remuneração online, muitos artistas se mostram relutantes em colocar suas obras na Internet. Por que decidiu colocar seus discos em streaming no Soundcloud?
Guilherme Arantes - Porque o meu trabalho já frutificou bastante em termos de retorno para todos, e aos poucos, com o passar de décadas, já vai se consolidando uma espécie de "domínio público". Para mim, é muito importante qualquer pessoa tenha acesso a tudo que eu fiz. Isso teria sido muito útil para carreiras importantes, como as de Taiguara, de Johnny Alf, de tantos criadores importantes de conteúdo, mas que não tiveram a oportunidade, em vida, de ter o seu trabalho disponibilizado universalmente... É muito gostoso, pra quem tem uma obra extensa, numerosa, uma longa jornada, e ver isso acontecer : tudo ali, reunido.
 
- Como recebeu o convite do Porto Musical para vir ao Recife para falar sobre sua experiência musical ao lado de Marcus Preto?
Guilherme Arantes - Com muita alegria, penso que vai ser um debate delicioso, Marcus é um conhecedor, um amigo importante, que tem feito trabalhos incríveis dentro da sua área.
 
- A exportação de talentos musicais brasileiros para o mercado estrangeiro ainda é um pouco tímida. Quando você se apresentou em outros países, o que sentiu de dificuldade desde o agendamento até a hora de mostrar seu trabalho a um público diferente?
Guilherme Arantes - O Brasil sofre um isolamento muito forte em função do idioma. Quando se fala em musica brasileira, já se intui um "exotismo" de world music... Poucos artistas brasileiros se tornaram realmente universais, como Jobim e os clássicos expoentes da Bossa Nova, que conseguiram inventar coisas que os americanos tanto apreciaram. Esse fenômeno é muito raro. Mas há lugares, como o Japão, onde a musica brasileira é muito difundida, e lá já é quase que uma mania nacional.
 
- O Porto Musical está chegando à sétima edição. É uma convenção que promove encontros entre profissionais de diversas partes do mundo e mostra cases interessantes de cooperação internacional. De que forma você enxerga esses eventos e no que eles podem contribuir para o mercado brasileiro?
Guilherme Arantes - Fundamentais, porque a música vive, primordialmente, de todos que a amam, a cultivam, não somente como indústria de vaidades ou pra ganhar dinheiro. Não é essa a ideologia : a arte vive do "amadorismo" de seua apreciadores. Essa é a diferença de outras modalidades de "business".


PORTO MUSICAL
SEXTA – 06/Fev - TEATRO APOLO
15h30 às 17h30 - ENTREVISTA - “As Histórias por Trás das Canções” - Marcus Preto entrevista Guilherme Arantes
Entrada para inscritos e participantes do evento
Mais informações: www.portomusical.com.br